sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Marcelo Yuka, em ‘Ocas - saindo das ruas’

Já vi tantas atitudes mínimas dando resultados, que isso acaba sendo mais forte que as decepções que tive. Existe por aí uma idéia de que tudo é gigantescamente errado e que um simples cidadão, sozinho, é incapaz de mudar isso. Mas não é verdade. Todo dia tem gente por aí fazendo e acontecendo, e não tem o olhar da mídia. E você ter essa certeza na sua vida, de que isso faz a diferença, não é sonho, não é lorota, não é golpe de sorte, quando você tem essa noção você acredita que tem um poder. E o problema é que você não é educado para sentir esse poder. O poder do cidadão. Você é educado para sentir medo, para se fechar, para não se doar. Não existe mais o pensamento tribal, a cidade ficou maior que o homem. É para ser o contrário: ela tem que nos servir. Não importa se você conhece ou não aquela criança que caiu no chão, se eu estou passando vou ajudá-la. Aí neguinho vem dizer: "Ah, mas não é meu filho...". Dane-se. Os caras que tocaram fogo no índio Galdino alegaram que pensavam que ele era "apenas um mendigo". Quer coisa mais absurda? O ato de matar moradores de rua é antigo. A sociedade brasileira faz isso de tempos em tempos nas suas grandes metrópoles há décadas. Para mim, o que se chama de violência hoje é um grito esquizofrênico por um pedido de reeducação. Ou as pessoas que têm chance à educação revêem seus conceitos, ou elas vão pagar um preço cada vez mais alto por isso. Não desejo mal a ninguém, mas tudo funciona como conseqüência. O Brasil é campeão de injustiça social. Não é só dar educação a quem não tem, mas reeducar o ponto de vista daqueles que têm. Yuca

A história já é conhecida: novembro de 2000, um assalto, nove tiros. Marcelo Yuka, então baterista e principal compositor da banda O Rappa, sobreviveu ao episódio e ficou paraplégico, tendo deixado a banda pouco tempo depois. Depois de um período recluso e longe da mídia, o músico e ativista retornou ao trabalho com o F.U.R.T.O, com apenas um disco, lançado em 2005. Agora, ele passa por uma nova fase: o discurso, sempre politizado, vem carregado de esperança. Yuka atualmente trabalha em um álbum com o produtor Apollo 9 (as cantoras Céu e Cibelle estão entre as participações especiais), além de produzir o Mestiço, segundo ele, um projeto de "eletro-indígena-hardcore". A estrada também volta aos planos - ele se apresentou na Virada Cultural, em São Paulo, e subirá aos palcos do festival Black na Cena e do Rock in Rio. Mas conversar com Marcelo Yuka vai muito além da música: "Hoje sei que, em algum lugar, tem alguém querendo ouvir o que tenho pra dizer"...
por POR GABRIEL LOUBACK  
                                                                                                              

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