domingo, 2 de outubro de 2011

Até quando? ("Imagens Escritas")








José de Sousa Saramago - Portugal - 1922 // 2010

Produzimos uma Cultura de Devastação.


Todos os anos exterminamos comunidades indígenas, milhares de hectares de florestas e até inúmeras palavras das nossas línguas. A cada minuto extinguimos uma espécie de aves e alguém em algum lugar recôndito contempla pela última vez na Terra uma determinada flor. Konrad Lorenz não se enganou ao dizer que somos o elo perdido entre o macaco e o ser humano. Somos isso, uma espécie que gira sem encontrar o seu horizonte, um projecto por concluir. Falou-se bastante ultimamente do genoma e, ao que parece, a única coisa que nos distancia na realidade dos animais é a nossa capacidade de esperança. Produzimos uma cultura de devastação baseada muitas vezes no engano da superioridade das raças, dos deuses, e sustentada pela desumanidade do poder económico. Sempre me pareceu incrível que uma sociedade tão pragmática como a ocidental tenha deificado coisas abstractas como esse papel chamado dinheiro e uma cadeia de imagens efémeras. Devemos fortalecer, como tantas vezes disse, a tribo da sensibilidade... 

José Saramago, in 'Revista Universidad de Antioquia (2001)'

Tema(s): Humanidade 

ATÉ QUANDO? Acaso. Acaso (versão paralela). O sem caráter.

Acaso

Não estava mais sentindo o chicote estalando em suas costas. Já faziam dois dias que estava amarrado naquela posição.
A dormência, provocada pelo cansaço, substituiu a sua dor.

 - Cinquenta e quatro, cinquenta e cinco, cinq... - Contava em voz alta, o seu senhor.

 - Chiuaf! Chiuaf! - Silvava a vara nas costas do cativo.

 - Ocê num se meti a besta, nunca mais! - Dizia o carrasco, enquanto transpirava de cansaço.

 - Setenta e um, setenta e dois, set... - Lembrou-se da Gâmbia, sua terra natal. Como deveriam estar seus pais? Como deveriam estar todos em sua tribo?

 - Oitenta e três, oitenta e quatro, oit... - Seu senhor contava, enquanto montava no cavalo.

- 
Mama, mimi...nina... nyuma! Mama,...mimi...nina...nyuma! - Arquejou o jovem escravo.

  Abriu os olhos e viu novamente a sua tribo, formada por todos aqueles que se foram, devido a ganância e a ignorância do homem branco. 
  Foi, então, que o seu senhor bateu as esporas no cavalo e sumiu no horizonte, vivendo o resto de sua vida feliz para sempre.
Por: Alexandre Mendes

  

Acaso (versão paralela)

 Não estava mais sentindo o cassetete quebrando suas costelas. O spray de pimenta o cegou e estava cada vez mais difícil respirar. A dormência, provocada pelo cansaço, substituiu a sua dor. 

- Esses baderneiros... Filhos da puta... - Comentava o capital 

Os instrumentos eram utilizados sem o menor pudor. O som seco e surdo produzido era indescritível. - BADERNEIRO... FILHO DA PUTA... - Berrava, o agressor, enquanto descia o braço.

 Lembrou-se de sua família, do porque resolveu se envolver naquela manifestação. Será que conseguiriam impedir a desocupação? Para onde iriam todos de sua comunidade?

 - Esses baderneiros... Filhos da puta... - O capital cantarolava, enquanto olhava o noticiário da tv. 

- Por favor... Não... Por favor... Eu sou trabalhador... - Arquejou o jovem espancado. Abriu os olhos e viu novamente sua comunidade, formada por todos aqueles que se foram, devido a ganância e a ignorância do capital. 
Foi, então, que o senhor capital desligou a tv e encheu um copo de whisky, vivendo feliz para sempre.
Por: Fábio da Silva Barbosa


O Sem Caráter


Por: Fabio da Silva Barbosa

Baba ovo, lambe botas, puxa saco 
Sempre bajulando seu algoz
- Terrível velhaco 
Dizíamos a uma só voz

Logo foi promovido
Tornou-se um desprezível fiscal
Não tolerava atraso ou conflito
Não podíamos passar mal

Tinha orgulho de ser odiado
Achava que não fazia parte dos trabalhadores
Todos preferiam ver o diabo
que esbarrar com este maldito pelos corredores

Um dia o patrão ficou enjoado
Despediu o dedo duro
Havia achado um novo brinquedo
Não precisava mais do cu de burro

O fiscal ficou sozinho
Sem amigos para conversar 
Avaliou todo seu empenho
Percebeu que estivera a se enganar


Aquilo não era apenas fazer seu trabalho
Ia além de uma mera tarefa
Esqueceu quem era e de onde veio
Acreditou na mentira cega


Valeu, irmãos!!! Bacana fortificação!!!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

O sonho não vai acabar!



A chama não se apagou
Nem se apagará
És luz de eterno fulgor
Candeia

O tempo que o samba viver
O sonho não vai acabar
E ninguém irá esquecer
Candeia

Todo tempo que o céu
Abrigar o encanto de uma lua cheia
E o pescador afirmar
Que ouviu o cantar da sereia
E as fortes ondas do mar
Sorrindo brincar com a areia
A chama não vai se apagar
Candeia
Onde houver uma crença
Uma gota de fé
Uma roda, uma aldeia
Um sorriso, um olhar
Que é um poema de fé
Sangue a correr nas veias
Um cantar à vontade
Outras coisas que a liberdade semeia
O sonho não vai acabar
Candeia...

Composição: Luiz Carlos da Vila / Adilson Victor 




Homenagem a Mestre Candeia - "Silêncio de Bamba" (1979)





Porque o sonho virou pesadelo.

Quem menos trabalha
mais direitos tem
Quem mais trabalha
é tratado como refém

Quem inventa arma 
é agraciado
Quem faz cultura 
é ignorado

Quem aceita 
é massacrado
Quem vai a luta
é criminalizado

Mas têm estórias
que contam pra dormir
Se estiver despreparado
pode até cair.
Por: Fabio da Silva Barbosa




sábado, 24 de setembro de 2011

O amor pelo dinheiro

Tradução e legendas: Janos Biro  


Quando o poder do amor se sobrepuser ao amor pelo poder, o mundo conhecerá a paz.
(Jimi Hendrix)